Após dois anos, morte de Bernardo une corrente em busca de justiça

Com cerca de 25 mil habitantes, Três Passos, situada a 474 quilômetros de Porto Alegre, no Noroeste do Rio Grande do Sul, é uma pacata cidade de interior. As ruas são calmas e silenciosas em grande parte do dia, com exceção da Avenida Júlio de Castilhos, que atravessa o Centro e é uma das principais vias do município, uma das únicas asfaltadas. Por ela passam mais carros do que pessoas, mas a maioria dos motoristas estaciona na faixa de segurança para que os pedestres possam atravessar.A duas quadras dali está a casa da família Boldrini, em uma rua de paralelepípedo pouco movimentada. Ali moravam o médico mais conhecido e respeitado da cidade, Leandro Boldrini, 40 anos, a mulher dele Graciele Ugulini, 38, a filha do casal, e Bernardo, que se tornou protagonista de uma triste e trágica história que se espalhou pelos noticiários mundo afora há dois anos.

Alguns moradores dizem que o crime colocou a cidade "no mapa do Brasil". Mas apesar de toda a dor, uma corrente por justiça e solidariedade, formada na pequena cidadezinha do interior gaúcho, amarrou laços no resto do país. 

À época com 11 anos de idade, o menino foi dado como desaparecido. Dez dias depois, seu corpo foi encontrado enterrado em uma cova rasa, envolto em um saco plástico, às margens de um rio na zona rural de Frederico Westphalen, a 80 quilômetros de Três Passos.

O crime tornou pública a história da família Boldrini, marcada por desamparo e negligência em relação ao menino. Órfão de mãe, ele chegou a ir sozinho ao Ministério Público pedir ajuda e um novo lar para morar. O pai, a madrasta, uma amiga dela e seu irmão foram presos e atualmente respondem pelo crime, aguardando julgamento.

Taxistas que trabalham no ponto da Rodoviária de Três Passos comentam que, não raro, pessoas de cidades vizinhas, inclusive de outros estados, desembarcam no terminal e pedem pelo "famoso endereço". Não há na cidade quem não saiba indicar onde fica a casa dos Boldrini.Os moradores, porém, não costumam falar muito sobre o que aconteceu. Evitam fazer comentários, já que "todo mundo na cidade se conhece". Mas muitos concordam: as circunstâncias do crime chocaram e tudo o que envolve os Boldrini ainda gera muita comoção na comunidade.

A residência, que ocupa meio quarteirão, fica entre outras duas moradias. A grama alta no imenso pátio e algumas telhas quebradas denunciam o abandono. "Parece que até tem roupa estendida no varal, lá atrás", comenta uma vizinha, que prefere não se identificar.

A piscina, que fica no pátio na parte de trás da casa, frequentemente é limpa por técnicos da prefeitura de Três Passos, para evitar focos de Aedes aegypt. A região Noroeste do estado apresenta alto índice de infestação do mosquito. Afora isso, nada mais foi alterado no lar dos Boldrini desde então.A corrente que Bernardo uniu

Quase não dá para ver o que há atrás do portão, só espiando entre as grades e os cartazes e banners fixados por amigos. Há mensagens assinadas por moradores do Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraíba e Rio Grande do Norte, que nunca viram Bernardo, mas o conheceram pelas manchetes dos noticiários.

Através das redes sociais, a relação de quem se sensibilizou com a história do menino que "só queria amor, a chave de casa e um aquário com um peixinho de estimação" se fortaleceu. Por ali, diariamente são trocados recados de afeto e conforto. Muitos nunca pisaram em Três Passos, mas se unem para contribuir e arrecadar recursos para as confecções das pequenas homenagens.

"Eles se abrem, contam suas próprias histórias e a gente acaba consolando eles. No fim das contas, por causa do Bernardo, se formou uma corrente mesmo", explica Susana Ottonelli, 47 anos, que foi professora do menino no Colégio Ipiranga. "A gente fez tanta amizade, conheceu tanta gente de longe. É impressionante", completa. "A maioria das senhoras que eu converso na internet se diz mãe do Bernardo. Eu acho tão bonito", emociona-se.A morte de Bernardo a aproximou ainda mais de Juçara Petry, 56, e Isolda Klein, 68 anos, que também tinham um convívio quase familiar com Bernardo. Juntas, as três dividem a resposabilidade de manter limpo o "jardim do Bê", montado em frente à casa dos Boldrini. Os arranjos de flores brancas também são preparados com dinheiro enviado por voluntários.

"Foi muita crueldade o que fizeram. Não foi uma morte acidental, elas [Graciele e Edelvânia] planejaram isso. Por isso as pessoas se sensibilizaram tanto", analisa Juçara, a quem Bernardo chamava de Tia Ju. "Ele veio com uma missão especial, só pode. Porque passar por tudo isso, sabe? Só pode ser para abrir a mente de muito ser humano, mudar as pessoas, unir famílias que estavam separadas", pensa Isolda.

Embora continuem mobilizadas, as três enfrentam resistências de alguns vizinhos. "Tem gente que acha que ele [Leandro] não tem culpa, que a gente tem que parar. Talvez ele não tenha feito nada mesmo, não sei. O Judiciário que vai dizer. Ele não era uma pessoa ruim, sabe? Era um médico bom, todo mundo conhecia. Ele só não soube cuidar do filho. Ninguém tinha queixa dele, até isso acontecer", sustenta Juçara. "A gente só quer justiça. Nós temos fé", completa ela.

"Muita gente diz pra gente parar, pra deixar o Bernardo descansar. Ele está descansando, está do lado da mãe dele. Mas isso que a gente faz é para saberem que nós aqui, estamos atrás da justiça. Na hora que tudo acabar, nós vamos tirar tudo daqui, sem problema nenhum", afirma Susana. "Não é contra ele [Leandro] ou contra ela [Graciele]. É pela justiça", reforça.

Homenagens se espalham

Não é só na casa de Bernardo que a morte do menino é lembrada. Outros pontos da cidade são usados para recordar a história e pedir justiça. Em frente ao prédio do Fórum de Três Passos, que fica ao lado do Ministério Público, também no Centro da cidade, 20 banners foram fixados. Em um deles, assinados por colegas e amigos da escola, uma frase se repete: "Te amo, Bê".

Prestes a completar dois anos, a morte de Bernardo foi lembrada no sábado (2) em uma missacelebrada na Igreja Matriz Santa Inês, onde o garoto foi coroinha. A chuva e o vento que atingiram a cidade justamente no momento da cerimônia acabaram impedindo a caminhada que seria realizada. O momento foi marcado por muita emoção entre os presentes. Adesivos com o rosto do menino foram entregues aos participantes do ato.A missa, rezada pelo padre Rudinei da Rosa, durou cerca de 1h10, e reuniu quase 400 pessoas. "Dois anos sem Bernardo. Sem o nosso menino Bê. Além dele, nós rezamos por todas as vítimas aqui hoje. Nós rezamos a dor de tantos crimes que continuam acontecendo. A pergunta que a igreja hoje faz é: 'o que acontece nesse país com quem mata crianças? O que a lei faz com essas pessoas?'", questionou o padre.

Investigação e julgamento

Quatro réus estão presos e respondem pelo crime: além de Leandro Boldrini, o pai, e Graciele Ugulini, a madrasta, os irmãos Edelvânia, 42 anos, e Evandro Wirganovicz, 33, também foram detidos. Eles aguardam julgamento.

A Polícia Civil investigou e concluiu que o menino morreu em razão de uma superdosagem do sedativo midazolan. Graciele e Edelvânia teriam aplicado o medicamento que levou o garoto à morte. Depois, as duas teriam recebido ajuda de Evandro para cavar a cova e ocultar o cadáver. A denúncia do Ministério Público ainda apontou que Boldrini foi o mentor de todo o crime.

A Justiça decidiu pelo júri popular para os quatro. No entanto, as defesas de Boldrini, Graciele e Evandro recorreram. O recurso começou a ser analisado em janeiro, mas foi suspenso e não tem data para ser retomado.

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