Caso Bernardo: interrogatório é marcado por silêncio e declarações de inocência

Os réus do Caso Bernardo foram interrogados nesta quarta-feira (27) no Foro de Três Passos. A audiência marcada para começar às 9h30min, teve início uma hora depois em razão do atraso na chegada dos réus pela Susepe. Durou cerca de seis horas, com um intervalo para o almoço.

Evandro Wirganovicz foi o primeiro a chegar numa viatura da Susepe. Logo depois, ingressaram os veículos transportando Leandro Boldrini, Graciele Ugulini e Edelvânia Wirganovicz. Os quatro foram recebidos aos gritos de “assassinos” e a reprodução de uma gravação num carro de som dos gritos do menino Bernardo pedindo socorro. A mobilização foi organizada por diversos moradores da cidade.

O INTERROGATÓRIO

Leandro Boldrini

O primeiro a depor foi o pai de Bernardo, Leandro Boldrini. O advogado do réu, Ezequiel Vetoretti,  surpreendeu ao público que acompanhava a audiência ao afirmar que o médico responderia a todas as perguntas. Na sua primeira resposta, após ouvir do que estava sendo acusado pelo juiz, Boldrini disse ser inocente.

“Eu não participei desses fatos”, declarou o médico bastante abatido.

Leandro Boldrini atribuiu o crime aos outros réus.

“Isso foi praticado por esses outros aí”, afirmou Boldrini numa referência à Graciele, Edelvânia e Evandro.

O pai de Bernardo disse que não conhecia Edelvânia e Evandro. Também explicou a forma como utilizava o medicamento Midazolan (o medicamento foi usado para matar Bernardo). Garantiu que o controle dos receituários era extremamente rigoroso. Perguntado se a assinatura num dos receituários apreendidos pela polícia era dele, disse que não.

Boldrini também respondeu a perguntas sobre a relação com Bernardo. Disse que o menino tinha acompanhamento psiquiátrico, mas que parou de tomar os remédios depois de um certo tempo. Afirmou ainda que nunca agrediu ele.

“Eu só queria que ele me respeitasse”, disse Boldrini.

O médico admitiu que Graciele não gostava de Bernardo. Relatou que a madrasta não gostava que o menino se aproximasse da irmã (Maria Valentina), filha do casal.

“A Graciele criou uma bolha em volta da Maria”, disse Boldrini.

Sobre o vídeo que gravou do filho pedindo socorro e com uma faca em mãos, disse que o fez para pedir ajuda, já que achava que Bernardo estava fora de controle.

“O grau de tolerância de Bernardo era zero”, relatou o pai do menino.

O médico também falou sobre o dia do desaparecimento do filho. Afirmou que achava que ele estaria na casa de um amiguinho e que não imaginava que Graciele teria feito algo contra ele. Também disse que decidiu procurar o filho só no domingo, porque ele já tinha passado do horário sempre combinado de retorno para casa.

“Sempre dizia pra ele voltar às 19h”, relatou o médico.

Perguntado quando ficou sabendo da morte do filho, disse que só quando o corpo foi encontrado.

“Eu só fiquei sabendo da morte do Bernardo quando eu estava preso”.

Leandro Boldrini também disse que quando recebeu a informação de que Graciele teve participação, teve que ser contido pelos policiais.

“Quando ela me confessa que teve participação, a polícia me segurou”, conta Boldrini.

Boldrini também foi perguntado porque não se submeteu ao detector de mentiras da Polícia Civil e se submeteu a um equipamento privado. Disse que foi orientação do advogado na época.

Na sua manifestação final, após três horas e dez minutos, Boldrini volta a jurar inocência.

“A minha inocência é cristalina. Estou preso injustamente. Estou aqui para buscar a verdade. Eu sou inocente doutor. O senhor poderia assinar um alvará de soltura para eu sair da PASC e não iria se arrepender”, concluiu o médico.

O SILÊNCIO DE GRACIELE

Depois de Leandro Boldrini, entrou na sala de audiência a madrasta do menino Bernardo. Ao ser perguntada pelo juiz dados pessoais, Graciele disse que não lembrava do nome, da idade, se era casada e nem a profissão. Com a saída dos fotórgrafos e cinegrafistas e depois de tomar um gole de água, passou a se lembrar. Mesmo assim, exerceu o direito de ficar em silêncio.

O SILÊNCIO DE EDELVÂNIA

Mais falante que Graciiele, Edelvânia também exerceu o direito de permanecer em silêncio. No entanto, detalhou sua vida profissional quando perguntada.

Com voz mais firme, reclamou que não deveria estar na audiência, porque estaria em “tratamento” e por isso não teria condições de responder a perguntas. Já tendo a convicção formada que vai à Júri, falou a última frase antes de sair.

“Só vou falar no Júri”, concluiu Edelvânia.

O CHORO DE EVANDRO

O réu Evandro Wirganovicz passou boa parte do interrogatório chorando. Principalmente quando falava das duas filhas pequenas. Perguntado se havia participado do crime, disse que não.

“Eu sou inocente. Eu não cavei nada”, disse Evandro.

O réu é acusado de ajudar a cavar a cova dois dias antes da morte do menino Bernardo. Seu carro foi visto por policial aposentado a poucos metros do local.

“Eu estava pescando naquele dia. Eu não fiz nada”, soluçava Evandro.

Sobre Edelvânia, disse que “se ela fez, ela tem que pagar”.

Na sua última manifestação tentou sensibilizar o magistrado.

“Deus vai tocar no seu coração e o senhor vai ver que estou falando a verdade”, concluiu o motorista.

MAIS UM PEDIDO DE AFASTAMENTO DO JUIZ

Ao final da audiência, o advogado Demetryus Eugênio Grapiglia pediu vista de um inquérito que considerava importante, que foi negado pelo juiz. Diante disso, pediu para constar na ata de audiência o requerimento de Exceção de Suspeição, que é um recurso que pede a substituição do magistrado.

Marcos Luís Agostini negou e encaminhou o incidente para análise do Tribunal de Justiça. O advogado de Graciele já havia feito o mesmo pedido ao longo da semana, que também foi negado pelo juiz e em carácter liminar pelo Tribunal de Justiça.

PRÓXIMOS PASSOS DO PROCESSO

O juiz Marcos Luís Agostini, da 1ª Judicial de Três Passos, estima que em um mês e meio seja possível decidir se os réus serão julgados pelo Tribunal do Júri. Por meio da assessoria, explicou que primeiro precisa aguardar o prazo de cinco dias de cada parte para se debruçar nos autos.

Como são quatro réus, mais o Ministério Público, deve receber o processo de volta no início de julho. Depois, acredita que em dez dias possa tomar a decisão. Como há réus presos, afirma que há prioridade de análise.

O magistrado, no entanto, não quis estimar uma data para eventual julgamento pelos jurados.

Caso Bernardo 

Bernando Uglione Boldrini, 11 anos, foi encontrado morto no dia 14 de abril de 2014, após dez dias desaparecido. O corpo do jovem estava em um matagal, enterrado dentro de um saco, na localidade de Linha São Francisco, em Frederico Westphalen. O menino morava com o pai, o médico-cirurgião Leandro Boldrini, a madrasta, Graciele Ugulini, e uma meia-irmã, de um ano, no município de Três Passos.

O pai, a madrasta e uma amiga dela, Edelvânia Wirganovicz, respondem na Justiça por homicídio quadruplamente qualificado (motivos torpe e fútil, emprego de veneno e recurso que dificultou a defesa da vítima) e ocultação de cadáver. O irmão de Edelvânia, Evandro, também responde por ocultação de cadáver. O pai de Bernardo ainda é acusado por falsidade ideológica.

Em 20 de maio de 2015, a Justiça de Três Passos determinou a reabertura do inquérito que apura a morte da mãe do menino Bernardo. Odilaine Uglione morreu em 10 de fevereiro de 2010, no consultório do médico Leandro Boldrini, então marido dela. Na época, a Polícia Civil concluiu que Odilaine cometeu suicídio com um tiro. A família da mãe de Bernardo, contestando o suicídio, acionou peritos particulares. A reabertura atende pedido do Ministério Público, que solicitou uma perícia oficial para confrontar o laudo particular apresentado pela avó do menino.

 

Eduardo Matos

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