Cerca de 6,7 mil alunos abandonaram as aulas em escolas do Rio Grande do Sul do início do ano letivo até maio, segundo apontam dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e do Censo Escolar. No ano passado, a evasão chegou a 54 mil.
Um dos principais indicadores de problemas nas escolas é a distorção entre a idade e a série, que começa quando o aluno já foi reprovado mais de duas vezes. Alunos mais velhos nem sempre se adaptam a compartilhar a mesma sala com os menores. No ensino médio gaúcho, o número de alunos nessa situação se aproxima do dobro do registrado em estados como Paraná e São Paulo.
"Crianças de 14 que têm que frequentar a escola com crianças de 10, já adolescentes, com outros interesses, isso para o fluxo, para a organização escolar, é extremamente grave, porque não se consegue dentro de uma mesma sala atender todos aqueles interesses de uma mesma turma", diz a promotora Luciana Cano Casarotto.
O Ministério Público, que vai discutir nesta sexta-feira (8) a distorção entre idade e série em um seminário com profissionais de educação, também espera encontrar respostas. "A escola é um local de aprendizado, não são números, são pessoas. Por que aquelas pessoas em desenvolvimento não estão aprendendo e não estão galgando todo o seu desenvolvimento conforme deveria ser um padrão? O que está acontecendo? Essa é a grande questão", diz Luciana.
A Secretaria de Educação diz que a evasão escolar está caindo nas escolas estaduais. Entre 1996 e 2016, passou de 7,15% para 1,1% no ensino fundamental, e de 15,97% para 7,5% no ensino médio.
O estudante Mateus Rodrigues conta que abandou os estudos no ano passado na Manoel Ribas, uma das maiores escolas estaduais de Santa Maria, na Região Central do estado. O baixo desempenho e a desmotivação levaram o jovem a desistir dos estudos. Mas neste ano, ele decidiu voltar. "Como temos que estudar para ter um emprego bom, tem que focar nos estudos, senão não temos futuro", conta.Para tornar o ensino estadual mais atraente, estão em estudo mudanças no currículo, que já começam a ser implantadas no ano que vem, nas escolas fundamentais. "Como esse aluno se relaciona com o outro e com a sociedade? E os componentes curriculares, acrescidos das contribuições dos professores, são tão importantes quanto o uso deles para podermos enxergar esse aluno nessas outras macrocompetências que são importantes pra vida", diz a diretora pedagógica da Secretaria Estadual da Educação, Sonia Maria Oliveira da Rosa.
Na Escola Professor Gentil Cardoso, em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a mudança começou há oito anos. O projeto Trajetórias Criativas hoje atende a uma centena de alunos que já não se interessavam pela escola, em um trabalho de resgate, onde a descoberta do mundo acontece dentro e fora de sala de aula.
"Eles são incentivados e a auto estima deles é trabalhada. Então quando você consegue ter sucesso, quando sabe que consegue atingir os objetivos como os colegas, você consegue ir em frente", explica a diretora da escola, Rosângela Machado Moura.
A aluna Eduarda de Moura aprova a iniciativa. "A gente consegue ter mais atenção com os professores, eles têm mais atenção com a gente. Eles ensinam, eles procuram interesse na gente. Eles tentam achar o nosso melhor."