Denúncias de violência doméstica passam a ser feitas também por WhatsApp no RS

Patrulha Maria da Penha tem carros da Brigada Militar identificados (Foto: Divulgação/SSP)

Preocupada com o aumento do número de feminicídios durante o isolamento social devido à pandemia de coronavírus, a Secretaria de Segurança Pública do RS lançou um novo meio de comunicação para receber denuncias de violência doméstica

Além dos telefones de emergência, com a campanha Rompa o Silêncio, a secretaria lançou um número de WhatsApp (51 98444 0606). O contato não é para ligações, mas para que as mulheres escrevam, relatem o que vem sofrendo com mais detalhes. A orientação é que elas salvem esse número no celular, no nome de uma outra pessoa, um amiga, um parente.

A diretora da divisão de proteção à mulher, Tatiana Bastos, explica que assim que a mensagem chegar, um policial deve entrar em contato com a vítima em no máximo 24 horas.

“Tentando atender essas ocorrências em, no máximo 24h, oportunizando que ela tenha acesso à medida protetiva de urgência mesmo pelo telefone, a todas as medidas de segurança da Lei Maria da Penha, transporte a local seguro se ela precisar sair de casa. Então, tem toda uma abordagem diferenciada pra minimizar o grau de risco no qual essa mulher esta inserida, mesmo sem sair de casa”, enfatiza a diretora da Divisão de Proteção a Mulher, delegada Tatiana Bastos.

O objetivo da campanha é fazer que parentes, amigos e vizinhos também denunciem.

“Ás vezes esse pequeno tempo que tu toma pra ligar pro 190, você vai salvar uma vida, e de toda uma família, que por vezes ficam crianças órfãos a partir de um feminicídio, o homem ainda comete suicídio. Então, a gente vê toda uma desorganização das famílias, então às vezes uma ligação salva muitas vidas”, destaca a coordenadora das Patrulhas Maria da Penha no estado, Major Karine Brum.

A intenção dos órgãos de segurança é facilitar o acesso das vítimas à rede de proteção, nesse período de isolamento social, em que muitas encontram dificuldade para sair de casa e denunciar o agressor. A pandemia acentuou a violência doméstica, ainda mais para as mulheres que dependem financeiramente dos companheiros.

“Você vê que essas mulheres que já estão sem trabalho que perderam sua autonomia, que precisam estabelecer um cuidado sobre a sua família, garantir alimentação. Elas vão utilizar os recursos que tem pra comprar alimentação, pra prover de remédios e a primeira coisa que acontece é perder a recarga do seu celular. A maioria das mulheres, da população brasileira não tem wi-fi em casa, então se essa mulher não fizer a recarga do seu celular ela, perde o contato definitivo com sua família com sua rede pessoal de proteção e com a possibilidade de pedir ajuda”, aponta a advogada do grupo Themis, Márcia Soares.

A Themis, Organização que trabalha com gênero, justiça e direitos humanos, tem auxiliado as mulheres vítimas de violência.

“É absolutamente importante que, neste momento, e é o que a Themis vem fazendo, a gente auxilia essas mulheres não só com ajuda emergencial de alimentação, mas auxilia essas mulheres a manterem-se conectadas com suas redes de proteção. Porque senão fica muito mais difícil de construir essas rotas de saída do relacionamento abusivo nesse momento”, afirma a advogada.

Nos casos graves de violência, as mulheres precisam ir até a delegacia, mesmo com a situação do isolamento social. Os crimes de feminicídio tentado, sexuais e casos de agressão que deixam lesões corporais, precisam de intervenção imediata, como o encaminhamento das mulheres para um exame.

As delegacias da mulher continuam abertas, mas seguindo os protocolos de atendimento, com acesso controlado para evitar a contaminação pelo coronavírus.

A major Karine ressalta que a maior preocupação são com as mulheres que não tem a medida protetiva. Dados da Patrulha Maria da Penha revelam que 75% das mulheres assassinadas não tinham medida protetiva ou qualquer ocorrência policial anterior.

“A realidade das mulheres, que já estão na rede de proteção que são as que nós atendemos, elas se sentem seguras porque elas têm visto todos os órgãos funcionando, tanto poder judiciário, Defensoria Pública, a própria Brigada Militar continuou com as visitas de maneira como era antes da pandemia. Acho que a nossa maior preocupação continua com aquelas mulheres que estão fora de acesso aos serviços, que elas não conhecem, não sabem a quem procurar. É importante, nesse momento, em que nós estamos falando tanto disso, que elas saibam que tem, sim, uma rede toda que pode dar o respaldo, que vai ajudar a procurar emprego, que vai ajudar a colocar em um lugar mais seguro, que vai ajudar a romper o ciclo da violência. Essas mulheres não estão sozinhas, todo um aparato de rede de proteção e contra violência existe aqui no estado, e estamos unidos e fortes e conscientes do nosso papel.”

G1 RS

voltar
© Copyright 2019