Em cinco anos, cai 28% número de alunos no magistério no RS

Desvalorização, falta de infraestrutura, recursos escassos. São muitos os motivos que levam milhares de jovens a não escolher o magistério como profissão. Nos últimos cinco anos, o número de matrículas no curso normal em todo o Rio Grande do Sul teve uma queda de 28%: passou de 15.265 alunos em 2009 para 10.975, conforme dados do último censo escolar, de 2014. 

Mas também há uma série de razões que impulsionam a escolha pela carreira de professor. A admiração pelo trabalho, o gostar de crianças e a vontade de mudar o mundo por meio da educação são algumas delas. 

Jaíne Alves Flor da Rosa, 18 anos, já se considera professora desde criança. Na escola, gostava de ajudar os colegas com as tarefas e estava sempre disposta a auxiliar quem não tinha entendido algum conteúdo. Hoje, cursa o terceiro ano no Curso Normal no Instituto Estadual de Educação Cristóvão de Mendoza, em Caxias do Sul, e já trabalha em uma escolinha. Foi a mãe quem insistiu para que Jaíne se matriculasse no magistério. 

"Eu entrei meio perdida, estava saindo do ensino fundamental, não era o que eu queria, uma sala praticamente só com meninas, era outra realidade. Depois de um tempo, eu fui criando um jeito, fui me apaixonando por tudo", conta a jovem que irá prestar vestibular de verão para Pedagogia. 

Quem também entrou no magistério por causa dos pais foi Mariana Molin dos Passos, 16 anos. Filha de professores, a jovem não pensava em seguir a mesma carreira deles, mas, agora, prestes a fazer o estágio obrigatório, não se imagina em outra profissão. 

"O que a gente vive no magistério, o contato com as crianças… eu fui vendo que era aquilo que queria. Até mesmo os trabalhos, eu me sinto muito bem fazendo", diz a aluna do Cristóvão de Mendoza. 

Diferente de Jaíne e Mariana, Mônica Simão da Cruz, 18 anos, aluna do Instituto de Educação Cenecista Santo Antônio, sempre soube que seria professora. Embora tenha consciência das dificuldades da profissão, garante que não abriria mão do magistério por nada neste mundo. 

"Os pais depositam os alunos com toda a confiança nas mãos do professor. Por mais que existam dificuldades, por mais que a valorização não seja a ideal, vale muito mais o amor. Pra mim, a felicidade de trabalhar naquilo que eu amo vale muito mais do que escolher outra profissão e saber que não vou ser feliz. O professor tem que amar o que faz e se valorizar, porque a valorização parte de si". Em dúvida

As dificuldades são justamente o que estão deixando Sara Gomes, 17 anos, em dúvida quanto ao futuro. Aluna do Curso Normal do Santo Antônio, ela ainda não sabe se seguirá no magistério. 

"A profissão pede muito de mim, me cobra muito e o Estado não supre com a minha necessidade de seguir como professora", admite a jovem, que está balançando entre as carreiras de Fonoaudiologia e Odontologia. 

Colega de Sara, Taila Alecha Camazzola, 17 anos, não continuará no magistério. Pelo menos por enquanto. A estudante até pensa em cursar Letras um dia, mas a opção no vestibular de verão será Terapia Ocupacional. Taila optou pelo curso que, apesar de não ser uma licenciatura, irá permitir que trabalhe com crianças. 

"Eu tive bastante experiência com alfabetização e me encantei, porque é um processo maravilhoso, saber que tu estás ensinando as crianças a ler. Tu acaba se envolvendo e se apegando, tu quer passar toda a tua experiência para elas, já imagina elas no futuro, são praticamente teus filhos". 

"Uma coisa bem bonita de se fazer é ser professor"
Joice da Luz da Rocha, 17 anos, queria ser engenheira química. Um dia, a irmã mais velha, que havia cursado um ano de magistério, sugeriu que a menina se matriculasse no Curso Normal. Joice nunca havia cogitado a possibilidade, mas resolveu arriscar e se apaixonou pela profissão. 

A aluna do Cristóvão de Mendoza está no último ano e faz o estágio no próximo semestre. Em novembro, presta vestibular para Pedagogia e projeta trabalhar com séries iniciais. E agradece diariamente à irmã pelo conselho que definiu seu futuro. 

"Tu aprende mais que ensina, tu aprende com as crianças. E tu começa a dar valor às coisas mais simples. Eu acho que uma coisa bem bonita de se fazer é ser professor".

Desinteresse
O número de alunos matriculados no Curso Normal vem caindo gradativamente nos últimos anos. São quase 5 mil a menos em cinco anos. Em Caxias, duas escolas deixaram de oferecer magistério: o São José, em 2006, e o São Carlos, em 2011. 

No Instituto de Educação Cenecista Santo Antônio, são apenas 40 alunos distribuídos entre 1º, 2º e 3º anos. O receio do diretor Valcir Prochnow é que esse número reduza ainda mais, o que inviabilizaria a continuidade da oferta do Curso Normal. Por isso, a escola divulga a modalidade em escolas de ensino fundamental. 

"Visitamos colégios e conversamos com alunos do 9º ano para desfazer o lado negativo da profissão". 

No Cristóvão de Mendoza, onde o ensino é público, o número é um pouco maior. São cerca de 200 alunos entre 1º, 2º e 3º anos e turmas de aproveitamento de estudos, onde estudantes que já concluíram o ensino médio cursam apenas disciplinas específicas. Destes, apenas quatro são homens. 

O vice-diretor do turno da manhã, Lindoberto Antonio Batista, ressalta que além do desinteresse, há os alunos que desistem ao longo do curso. "Tem uma seleção natural. Algumas vão se decepcionando, outras percebem que não é aquilo que querem fazer", diz. 

Na Universidade de Caxias do Sul, o número de matrículas em licenciaturas caiu pela metade em 10 anos, conforme a assessoria de imprensa. 

GAÚCHA SERRA

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