Morte precoce de abelhas preocupa apicultores de todo o RS Maior produtor de mel do Brasil, com cerca de 11 mil toneladas produzidas por ano, estado

O Rio Grande do Sul tem cerca de 490 mil colmeias de abelha que, além de produzir o mel para a alimentação de muitas famílias brasileiras, servem como fonte de renda para mais de 37 mil apicultores gaúchos. Porém, nas últimas semanas, os produtores têm relatado a morte precoce desses animais.

Em outras regiões, o problema é o mesmo. Em Santa Margarida do Sul, o apicultor Paulo Sérgio Miller Lima diz já ter perdido 30 caixas.

“Tem mais aí. Umas oito ou 10 que já morreram e continuam morrendo. Quanto ao prejuízo, cruza dos R$ 50 mil”, estima.

O apicultor suspeita de envenenamento por produtos químicos. Caso o laudo técnico confirme o motivo da morte, este será o quarto registro de envenenamento de abelhas na fronteira oeste no último mês, enquanto que, em todo o ano passado, foi apenas um caso.

Os inseticidas utilizados nas lavouras são os principais suspeitos, porque podem ser arrastados pelo vento e contaminar os insetos.

“Pelos sintomas das abelhas, que são desorientação, aqueles voos caóticos, em que a abelha cai, se debate, não consegue voltar para a sua colmeia, a gente consegue identificar que a provável, muito provável causa seja o agrotóxico”, relata Vilmar Tonello, assistente técnico de criações da Emater.

Poluição influencia na qualidade e no preço

Cada colmeia tem valor estimado de R$ 800. Segundo a Secretaria de Agricultura do estado, pelo menos 400 caixas, cada uma contendo até 100 mil abelhas, já foram perdidas este ano.

Além disso, as abelhas que sobrevivem nem sempre produzem o mel com a mesma qualidade, porque podem carregar resíduos químicos para dentro das colmeias e contaminar toda a produção. Por isso, antes de ser distribuído no mercado, o mel é testado pelo Ministério da Agricultura.

Caso sejam encontradas grandes concentrações de agrotóxico, o mel é destruído. Se tiver pequena quantidade, o produto é desvalorizado, como explica Aldo Machado, coordenador da câmara técnica da apicultura da Secretaria de Agricultura do RS.

Soluções para diminuir a mortandade

No último mês, o governo do estado, em parceria com o Ministério Público, iniciou a instalação de 20 estações meteorológicas em todas as regiões do estado para monitorar o uso dos produtos químicos nas lavouras. O projeto faz parte do inquérito que investiga o uso do defensivo 2,4-D, instaurado pelo Ministério Público estadual no ano passado.

O promotor de justiça do meio ambiente, Alexandre Saltz, diz que o projeto desenvolvido com as universidades PUC-RS e UFRGS resultará na implementação de um sistema integrado, que vai permitir o monitoramento de abelhas em tempo real.

“A partir disso, nós poderemos identificar eventuais mortandades e atuar imediatamente para apurar as causas respectivas”, explica Saltz.

As estações ajudam também no monitoramento de questões climáticas.

“Aplicar defensivos agrícolas nessas regiões em um melhor momento ia diminuir muito as chances de deriva e acontecer uma má aplicação, podendo trazer resultados negativos para outras culturas e para as próprias abelhas”, ressalta o Secretário de Agricultura do estado, Covatti Filho.

Na cidade de Condor, no noroeste do estado, um produtor rural encontrou uma forma de manter o equilíbrio entre o campo e os animais. Thiago Strobel possui lavouras onde planta culturas de inverno, como centeio e aveia e, eventualmente, precisa fazer uso de defensivos agrícolas.

Mas, o produtor reconhece a importância das abelhas e, por isso, aplica os agrotóxicos em horários de menor atividade dos enxames.

Abelhas como agentes polinizadoras

Apesar da relevante produção de mel, o trabalho dos insetos como agentes polinizadores é apontado por especialistas como a função mais importante desses animais. As abelhas são responsáveis por cerca de 75% da polinização de todas as espécies de plantas, e esse processo é fundamental para a manutenção da fauna e flora.

“Existe uma cadeia trófica que depende da abelha. Outros pássaros, animais, irão se alimentar dos frutos dessas plantas, que passarão a não existir mais caso as abelhas passem a não exercer o seu papel de polinizadoras”, acrescenta a engenheira agrônoma Maristela Camillo.

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